top of page

NARRATIVAS BREVES - 2ª EDIÇÃO

(Crônicas)

O cotidiano costuma passar rápido demais. Entre horários, telas, ônibus, salas de aula e conversas interrompidas, quase nunca há tempo para reparar no que acontece ao redor — ou dentro de nós.
 

As crônicas que compõem esta seção nasceram justamente desse exercício de atenção. A partir de situações simples, os estudantes transformaram observação em narrativa, experiência em palavra. Não se trata de grandes acontecimentos, mas de pequenos deslocamentos: um olhar, uma espera, um silêncio, um gesto.

 

Escritas em diferentes momentos e por vozes distintas, essas crônicas revelam modos diversos de perceber o mundo e de se posicionar diante dele. São textos que não pretendem explicar tudo, mas convidam à pausa — e à leitura do que, muitas vezes, passa despercebido.

image.png

Vitrine

O mundo faz dessas coisas. Coloca diante de nós desejos que não podemos alcançar. E não falo apenas de dinheiro — o mais óbvio —, mas daquilo que é mais profundo, do que prende o ar que respiramos e insiste em permanecer.

 

Hoje, vi uma senhora no ponto de ônibus. Ela observava atentamente a vitrine de uma loja. Dentro dela, havia um bolo: recheado de chocolate, com morangos no topo e açúcar polvilhado, bonito de um jeito quase exagerado. Não era um olhar de quem apenas vê, mas de quem deseja.

 

Não havia pressa naquele olhar. Era como se, por alguns segundos, o tempo tivesse diminuído. O bolo parecia carregar mais do que sabor — trazia memórias, vontades antigas, talvez até lembranças da infância. Um querer simples, mas intenso.

 

A senhora não entrou na loja. Permaneceu ali, parada, até o ônibus chegar. O desejo e o “não poder ter” se encontraram por instantes e se despediram em silêncio.

 

Aquilo me fez pensar em quantas vezes somos essa senhora. Em quantas vezes nossos objetivos não se concluem e acabam se tornando mais complicados do que deveriam. Às vezes, desejamos um pedido de desculpas que nunca veio, um abraço de alguém que já partiu, uma conversa que não aconteceu ou, simplesmente, estar perto de quem se ama.

 

O “não poder ter” é parte da nossa existência. Ele nos lembra, a cada instante, que somos limitados. Queremos controlar o tempo, acreditar que as coisas boas durarão para sempre ou que as ruins nunca chegarão ao fim. Mas a vida insiste em nos mostrar o contrário.

 

Talvez a felicidade esteja justamente no querer, mesmo quando sabemos que certos desejos são inalcançáveis. A senhora do ponto teve, ao menos, alguns segundos de imaginação.

 

E, no fim, é ela — a imaginação — que se torna nosso maior refúgio: o único lugar onde podemos ter tudo, sem limites. E isso, talvez, seja o suficiente para seguir.

Ana Beatriz de Jesus Silva Lacerda – 2º ano C

image.png

Apagão Social

O jantar seguia no ritmo de sempre. Três pessoas olhando para o celular, duas fingindo interesse na comida e uma falando sozinha. Tudo parecia funcionar dentro daquela normalidade estranha que já não causa espanto.

 

Até que, de repente, a luz acabou. Plim. Escuridão total.

 

— E agora? — perguntou a tia Néia, como se alguém ali fosse eletricista.

 

Sem internet, sem tela e sem nada para distrair, restou a todos apenas a própria cara… e a dos outros. Trágico.

 

Acenderam uma vela torta, que iluminou a mesa e criou uma atmosfera quase secreta, dessas que parecem guardar histórias. Foi então que o inevitável aconteceu: as pessoas começaram a conversar.

 

— Nossa, como você cresceu! — disse o tio que não conversava com ninguém desde 2019.

 

— Alguém lembra como é falar olhando no olho? — perguntou o primo, meio assustado.

 

E o incrível aconteceu. Riram, trocaram histórias, até descobrirem que dona Lourdes tinha medo do escuro — o que ela negou enquanto segurava a mão de quem estivesse mais perto.

 

Quando a luz voltou, todo mundo ficou um pouco decepcionado.

 

Porque foi no escuro que, pela primeira vez em muito tempo, a família inteira finalmente… funcionou.

Tainá Santos Alves

Vitrine

image.png

O Ponto Perdido

Eu estava sentada no ônibus, olhando para o celular, quando, de repente, o motorista anunciou que estávamos chegando ao meu ponto. Levantei rapidamente, mas o ônibus já tinha passado. Fiquei olhando para a tela como se ela tivesse alguma culpa.

Eu me senti estúpida. Sabia que precisava descer ali, mas me distraí. Estava lendo algo que me interessava muito enquanto escutava K-pop e, quando percebi, o ponto já tinha ficado para trás.

Desci no próximo. Agora eu estava na rua, sentada em um banco, esperando o ônibus para voltar. Suspirei. Era um dia comum, mas eu estava atrasada para um compromisso importante.

 

Peguei o celular de novo, como quem procura algo que já sabe que não está ali. Guardei-o. À minha volta, a cidade seguia em movimento, sem pausa, sem aviso.

 

Perder o ponto foi só um detalhe. O mais preocupante é quantas vezes a gente perde o presente inteiro — e ainda chama isso de rotina.

Stephany de Abreu Nunes Barbosa – 2º C

image.png

O Banco da Praça

A praça estava lá, igual sempre.

Mas Ayla e Lucas… esses estavam despedaçados.

 

Ayla sentou-se tremendo, tentando segurar o choro.

— Ela decidiu… eu vou embora hoje — disse, com a voz falhando.

 

Lucas segurou a mão dela, como quem segura a última chance de respirar.

 

Ficaram ali, sem dizer mais nada. Apenas esperando. Como se o tempo pudesse parar.

 

Acabou. Pelo menos ali.

 

Ayla se levantou. Lucas também… E partiram.

 

O banco continuou no mesmo lugar.

Rodrigo Lopes de Oliveira – 3º A

DOM - LOGO SITE.png

DOM — Revista Escolar. Projeto editorial produzido na E.E. José Domingos da Silveira.
© DOM Revista Escolar — Todos os direitos reservados.

  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
  • YouTube
bottom of page